ME CHAME PELO MEU NOME. André Aciman
ACIMAN, André. Me chame pelo seu nome. Rio de janeiro: Intrínseca, 2018. 288 p.
Flávia Poliana Serafim Alves
Consegue se lembrar de quando se apaixonou pela primeira vez? Lembra dos sentimentos de desejo? Da angústia e do medo de não ser correspondido? Do frio na barriga ao ver a pessoa e da ansiedade do próximo encontro? Consegue se lembrar da dor quando esse relacionamento chegou ao fim? Do desespero de nunca mais viver aquilo? Me chame pelo seu nome é um livro que nos faz voltar a esse momento e reviver essas emoções pelos olhos do protagonista, Elio.
Narrado em primeira pessoa, em tom de memória e bem pessoal, Elio, quando já é um homem mais velho, conta-nos a história de um verão no norte da Itália na década de 80, quando aos 17 anos se apaixona por um dos alunos de seu pai.
Elio é um adolescente muito inteligente, podendo ser considerado um garoto acima da média, gosta de ler, toca piano e transcreve músicas eruditas. Seus pais são professores universitários e todo os anos, na época de verão, hospedam em sua casa um estudante universitário estrangeiro, em uma espécie de estágio e férias. Oliver é o estudante do ano em questão, um belo homem americano, de 24 anos e doutorando de filosofia que está escrevendo um livro sobre o filósofo Heráclito.
É nesse clima do verão mediterrâneo, quente e seco, rodeados de conversas sobre arte, literatura, música e filosofia, que Elio e Oliver se apaixonam e vivem um romance de verão. Aqueles romances que começam de modo arrebatador, mas que tem prazo para acabar. Importante salientar que Elio e Oliver são bissexuais, os dois têm relacionamentos tanto com mulheres como com homens.
De forma crua e intensa e às vezes até exagerada, afinal na adolescência tudo é muito intenso, Elio nos conta seus dilemas, angústias e amadurecimento com e após o avassalador relacionamento. A obra aborda a descoberta da sexualidade, os desejos, os primeiros toques, a dor de quando o relacionamento acaba e a importância de senti-la. Assim, o livro nos traz a reflexão de que no mundo real, não existem finais felizes e, por isso, devemos viver e sentir tudo aquilo que nos é disposto no agora.
“No seu lugar, se houver dor, cuide dela, e se houver uma chama, não a apague, não seja bruto com ela. Arrancamos tanto de nós mesmos para nos curarmos das coisas mais rápido do que deveríamos, que declaramos falência antes mesmo dos trinta e temos menos a oferecer a cada vez que iniciamos algo com alguém novo. A abstinência pode ser uma coisa terrível quando não nos deixa dormir à noite, e ver que as pessoas nos esqueceram antes do que gostaríamos de ser esquecidos não é uma sensação melhor. Mas não sentir nada para não sentir alguma coisa... que desperdício!” (p.258)
O autor descreve as cenas com muita riqueza de detalhes, fazendo o livro ter muito apelo aos sentidos, quase como se pudéssemos sentir os cheiros, gostos e os tatos. Um livro poético, sensual e muito erótico, sendo, na minha opinião, não recomendado para menores de 18 anos. Mais que uma história de amor de verão, é uma história de abandono, abandono de si mesmo para se entregar ao outro, de confiar em outra pessoa, confiança total no outro ser humano. A vontade de unir-se, confundindo se no outro.
“- Me chame pelo seu nome e eu vou chamar você pelo meu.
Era algo que eu nunca tinha feito na vida e, assim que disse meu próprio nome como se fosse dele, fui levado a um domínio que nunca tinha compartilhado com ninguém, e que não compartilhei desde então.” (p.158)
O livro foi adaptado para o cinema em 2017, e foi muito aclamado pela crítica, recebendo quatro indicações ao Oscar de 2018 sendo eles: Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Música Original e Melhor Roteiro Adaptado, vencendo este último.


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