O FEMININO EM BUSCA DE SI. Com as armas sonolentas - Carola Saavedra

 Valéria Rocha Aveiro do Carmo


O feminino e a busca de si em Com armas sonolentas, de Carola Saavedra






“[...] uma sonolência, mal conseguia manter os olhos abertos, ela disse, é um bom sinal, os espíritos estão do nosso lado, e você tem agora suas próprias armas, deite, minha filha, deite aqui no meu colo, eu deitei a cabeça sobre sua saia, o tecido da camisola pareceu-me uma enorme manta com a qual eu me cobria, a mulher passou levemente os dedos pelo meu cabelo e começou a cantar numa língua desconhecida. ” (p.234)

Embalado pelo universo fantástico criado por Carola Saavedra, o leitor poderá saborear, acordado e atento, “Com armas sonolentas”, o novo romance da premiada autora. Sentindo dores e receios, será possível a todo aquele que se entregue à obra uma profunda reflexão sobre o feminino e seus segredos, ou seus sagrados já tão dessacralizados na moldura contemporânea.
A envolvente história traz como protagonistas três personagens bastante complexas que vivem seus dilemas de modo aparentemente desconectado, porém, é, ao confirmar os elos que as envolvem em uma mesma trama, que se descortinarão os implícitos, motivando as maiores epifanias.
A obra é organizada em duas partes, referindo-se aos acontecimentos externos, “O lado de fora”, e internos “O lado de dentro”, das três personagens; contudo, é possível que os leitores nunca saibam exatamente qual é a fronteira entre os estados psicológicos delas e seus estares no mundo, como uma fita de Möbius “que sofreu uma torção e por isso a superfície de dentro deságua na superfície de fora” (p.121) ou até como aquele que se sente o eterno estrangeiro, ou, ainda, em uma terceira dimensão.
Nas duas seções do livro encontramos as subdivisões intituladas Anna, Maike e a Avó. Anna é a mulher em torno da qual se inicia a história, uma atriz com desejo de se projetar na carreira, que se casa com um cineasta alemão e, ao mudar-se para o país dele, percebe que seu caminho será completamente diferente do que havia projetado. Ela sofre com a solidão promovida principalmente pela língua e outros demônios, acabando por tomar uma atitude extrema.
Mike, uma jovem alemã que resolve inexplicavelmente estudar Língua Portuguesa, é o segundo universo ao qual o leitor poderá mergulhar e morrer nessa tentativa de autodescoberta, a cada ato aparentemente insano dessa que leva uma facada nas costas como um recado de que sua origem é uma espécie de farsa. Talvez ela não seja quem pensa, em seu nome, sua aparência, na relação com outra mulher, em sua inusitada identificação com o Brasil, para onde ocorre a inevitável viagem.
As duas partes do livro relativas à Avó, que compõem o final tanto da primeira quanto da segunda parte, são o toque mais cru e, ao mesmo tempo, surpreendente do enredo, visto que, na verdade, o que se estrutura nesses momentos são duras narrativas de uma maternidade sem nome, imposta pela conjuntura de fragilidade social, relacionada a mais duas gerações de mulheres sofridas e desapoiadas em seus pesares. A solidão de ser mãe, o amor de ser mãe, a dor de ser mãe, o ódio de ser mãe... E o ser avó que se faz em nosso imaginário como aquela figura doce e cativante, é aquela que acompanha o percurso, despertando o caráter sobrenatural do enredo, fazendo-se uma quase divindade que abrirá as chaves mais profundas da interpretação dessa leitura, afinal é ela quem lê trechos de “Respuesta a sor Filotea” da sóror Juana Inés de la Cruz, autora do verso “Como armas sonolentas” do poema “Primero sueño”. É a Avó, também, que conduz a mulher sem nome ao seu destino final, em um decisivo e esperado afeto, quiçá impossível...
O tempo, na obra, flui de modo alinear, entrecortado, revelando os momentos marcantes da vida dessas personagens. São juventudes em paralelo, traduzidas, muitas vezes, em fluxos de consciência como ecos de Clarice Lispector. O espaço, entrecortado, determinante para o desconhecimento versus reconhecimento de si mesmas, fez com que a história circulasse entre Brasil e Alemanha, indo da origem ao incógnito e, depois, à busca de si. O enredo circular, com final aberto, os personagens densos, os discursos sem características fixas de estrutura, bem como os desafios lançados no plano da pontuação, em um romance polifônico, trazem a riqueza de um estilo literário hodierno e arrebatador. 
A autora Carola Saavedra também fez sua transição: nascida no Chile, veio para o Brasil com três anos. Doutora em literatura comparada pela UERJ, havia cursado mestrado na Alemanha, revelou-se uma estudiosa infatigável. Trabalha com oficinas para aqueles que queiram se descobrir autores e publicou vários livros pela Companhia das Letras, dentre eles Flores Azuis, com prêmio APCA de melhor romance 2008 e Paisagem com dromedário, prêmio Rachel de Queiroz em 2010.
Teria algo de autobiográfico impresso nas vozes das mulheres que compõem o cenário da obra?...
Com o subtítulo “Um romance de formaçãoCom armas sonolentas é uma instigante oportunidade de viajar, morrer, sentir no corpo e na alma os dilemas do ser e rever-se como humano, em busca de uma identidade latente, porém velada pela ação do tempo, do exílio e do abandono.
Agora, caro leitor, vamos adiante! Afinal, quais armas você tem ao seu dispor para se autoconhecer e exercer a sua verdade no mundo?

SAAVEDRA, Carola. Com armas sonolentas: um romance de formação. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. 269 p.


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