O MAL E SUAS FACETAS. Simpatia pelo demônio. Bernardo Carvalho
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CARVALHO, Bernardo. Simpatia pelo demônio. São Paulo: Companhia das letras, 2016. 236p.
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Flávia Nunes de Moraes
O demônio revestido de sentimentos tece o percurso provocativo do autor Bernardo Carvalho neste romance. A história, perturbadora e excitante, transporta os sentimentos angustiantes vividos pelo personagem principal para o leitor ao ponto de não abandonar a leitura até seu desfecho. Bernardo Carvalho percorre as facetas do mal quando o amor transcende a razão.
Rato, o personagem principal da trama, um brasileiro de meia idade, é convocado para uma misteriosa missão na instituição onde trabalha, uma agência humanitária, em Nova York, que trata da mediação de conflitos étnicos e religiosos. A missão, que consiste no resgate de um prisioneiro em um país do Oriente Médio, é seu último trabalho a ser realizado, pois está sendo demitido por um fato que o devastou moralmente, expondo sua vida pessoal e sexual para todos. Separado da esposa e longe da filha de sete anos mostra-se arrasado.
Embora desconfiado da missão, possivelmente suicida, viaja sozinho e confuso, mas com instruções detalhadas, um manual de sobrevivência para zonas de conflitos e uma mochila com uma quantia considerável de dinheiro para o resgate.
Ao chegar no local, onde guerras e disputas por territórios são sempre justificadas pela vontade de Deus, passa por situações inimagináveis. A violência é familiar a ele na teoria, tendo-a como sua tese de doutorado, porém se envolve em cenários desconhecidos e conflitantes até se ver preso em um quarto, abraçado com um homem bomba.
A partir daí a narrativa passa a ser construída pela memória vivida por ele nos últimos três anos. Passamos a compreender a simpatia pelo demônio, pois Rato percorre em suas lembranças toda a sua história vivida numa relação que envolve tramas amorosas e sexuais com o personagem Chihuahua, um mexicano, estudante de neurociência.
Experiente nos assuntos de guerra, mas amador no amor, Rato passa a viver uma relação de amor e ódio que nos envolve nos detalhes apresentados pelo autor, e olha que ele não economiza palavras para detalhar, levando-nos à uma tensão perturbadora e instigante e como se já não fosse suficiente os detalhes desta relação, a trama também apresenta o personagem Palhaço que divide com Rato o amor de Chihuahua.
É uma história que se apresenta na contemporaneidade com personagens que perpassam um universo cultural, trazendo referências eruditas interessantes, como Louis Finson e São Cristovão de Bosch, obra que inspirou a capa do livro.
Não há possibilidade de não recomendar: o livro é envolvente, levando-nos a lugares que, muitas vezes, são poucos conhecidos dentro de nós.

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