SOMBRAS DA ÁGUA - Mia Couto
COUTO, Mia, Sombras da água. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
Emílio Rodrigues Júnior
“Sombras da água” é um livro que mescla poesia e prosa, mostrando a brutalidade da guerra em Moçambique. A narrativa é contada através de dois personagens: o sargento português Germano Melo e a africana Imani; a história nos mostra a cultura africana e como a brutalidade da guerra mudou a vida das pessoas naquele período.
Mia Couto é um escritor moçambicano, biólogo de formação, que procura sempre valorizar a natureza e cultura africana em suas obras. Ele tem uma forma peculiar de construir seus romances, usando neologismos, criando palavras novas, o que deixa a sua prosa muito mais poética e vívida. Autor de livros e contos muito famosos como “Terra Sonâmbula”, “Outro pé da Sereia”, “Contos do nascer da Terra”; “Na Berma de Nenhuma Estrada” e o primeiro volume desta trilogia “Mulheres de cinza”.
A obra Sombras da Água, segundo volume da trilogia “As áreas do Imperador”, começa fazendo um resumo sobre o primeiro livro da série “Mulheres de cinza”, o que é muito importante para relembrar os aspectos principais da obra como um todo.
A história se passa no final do século XIX e através da obra podemos conhecer um pouco da história de Moçambique, quando esse país ainda estava no final do domínio do Estado de Gaza. Couto relata a guerra dos dois lados, tanto o Estado de Gaza, governado por Ngungunhane, último imperador do Império de Gaza, no território de Moçambique, quanto o governo português, assim como outros grupos africanos que não concordam com a política do estado de Gaza.
A história é relatada pelos dois personagens principais; a africana Imani com seu relato e prosa e com as cartas do sargento Germano, além de cartas escritas pelos seus oficiais, uma excelente ideia construída por Mia Couto, porque por meio destas cartas é possível descobrir um pouco mais sobre o que acontece fora do ambiente vivido pelos dois personagens principais.
Também fica evidenciado, na obra, a questão de raça por intermédio de um possível amor inter-racial, vivido pelos personagens Germano Melo e a africana Imani. Além disso, Couto também esclarece que na verdade não se tinha uma unanimidade entre todos os soldados portugueses que batalharam na África durante o conflito com o Estado de Gaza.
A obra “Sombras da Água” traz também o rio como um personagem importante da história, pois o primeiro volume da obra “Mulheres de cinza” encerra-se com os personagens principais navegando pelo rio. O Sargento Germano, doente, necessita de um médico e junto com africana Imani embarcam neste rio em busca de auxílio médico. O rio Inharrime, pelo qual eles vão navegando, e os reflexos deste trajeto, são nomeados por sombras da água, que dá origem ao nome do segundo volume.
Uma das passagens marcantes do livro acontece quando Imani lembra de uma das falas de sua mãe “não é a ti que citam os insultos, dizia ela, é a tua raça, a tua gente, finge que és agua, faz de conta que és um rio, a água, minha filha, é como uma cinza, ninguém a pode magoar”. (p. 65) Um exemplo claro que pode ser percebido pelo leitor, da importância que a água e outros elementos da natureza têm para a cultura africana.
Outra característica bastante importante: a história refere-se ao sincretismo religioso que também é comum ao Brasil. Através dos personagens, Padre e a Bibliana, que no decorrer da história, também é chamada de bruxa, vemos como o Cristianismo vai se misturando com as religiões africanas e como este processo vai se tornando um processo natural da história do pais. Assim também acontece com Bibliana, uma referência a bíblia; ela na verdade uma sacerdotisa de uma das religiões africanas, se podemos dizer assim. Um trecho da obra mostra os questionamentos recorrentes desta interação religiosa: “quantas bíblias existem meu soldado? Uma para os ingleses, outras para os portugueses, uma para os brancos e outra para os negros? Esse Deus que dizem ser o único, que língua ele fala”. (p. 89)
Devido à pluralidade dos personagens, dos conflitos abordados pela obra, em certos momentos tive dificuldade de definir a leitura e a história na tentativa de classifica-la como uma história de colonização, de guerra e desolação, ou de um conflito religioso e de identidades.
O livro também fala sobre como a guerra influencia o cotidiano da vida das pessoas, como ela muda a forma das pessoas se relacionarem, e como a guerra aflora o melhor e também o pior lado das pessoas através dos horrores que nos são apresentados. Uma metáfora indiciada na obra mostra um sonho da personagem Imani, no qual ela dá luz as armas, e neste momento, percebemos como a guerra contamina a relação da gravidez vivida pela personagem, o quanto ela afeta o psicológico desta mulher e de todos que estão neste cenário de conflito. Como é percebido na figura dos médicos nos hospitais que tratam os doentes e feridos na guerra, trazendo o clima pesado, mas também o tom de realidade proposto por Mia Couto em sua obra.
Ao longo da história, Mia couto, consegue fazer diversas referências à importância a literatura, mostrando ao leitor em diversas partes da obra a beleza de uma escrita artística. Como podemos averiguar em: “escrever é um verbo intransitivo. O meu modo de rezar, e quem reza, sabe que não há resposta.” (p....). Igualmente, à página 102:
“Os livros nunca estão escritos, quando os lemos, escrevemo-los, isto me fez faz pensar muito, estas histórias nunca estão escritas, elas passam a ser escritas como nós lemos, quando nós damos voz a esses personagens, quando nós trazemos essa história para dentro da gente, isto nos faz pensar muito acerca da literatura. Então, aqueles livros mortos na estante, ajude a dar vida a essas histórias, ajude a espalhar essas histórias que estão sendo criadas, vamos dar vida a esses personagens mexendo, lendo-os, lendo essas histórias, esses enredos”.

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