UM ROMANCE TEEN PARA ALÉM DA ALEMANHA. Tchick - Wolfgang Herrndorf
Paula Crepaldi Campião
São consideradas como parte da literatura contemporânea alemã, as obras escritas após a queda do muro de Berlim e a reunificação da Alemanha em 1989. A combinação entre a construção estética dos textos literários e fluidez de seus enredos têm feito com que os escritos ganhem leitores para além das fronteiras do país e sejam aclamados pela crítica através de importantes premiações, com destaque para os autores Günther Grass e Herta Müller laureados pelo prêmio Nobel de Literatura, em 1999 e 2009, respectivamente.
Dentro desse contexto de muitos best sellers de alta qualidade escritos em língua alemã, se destaca no campo da literatura infanto-juvenil o livro Tchick de Wolfgang Herrndorf, publicado em 2010, ganhador de diversas premiações, inclusive o notório Prêmio Alemão de Literatura Infanto-Juvenil (Deutscher Jugendliteraturpreis) em 2011. Com mais de 2 milhões de cópias vendidas na Alemanha, o livro foi publicado em mais de 25 países e adaptado para o teatro (2013), cinema (2016) e ópera (2017). A obra foi traduzida para o português brasileiro por Claudia Abeling, e publicada pela editora Tordesilhas em 2011.
Que fator é responsável pelo sucesso de Tchick? Ao ler o resumo da obra disponível no site da editora e no verso do livro, a impressão inicial é de que se trata de um típico drama adolescente: dois jovens de 14 anos com dificuldades sociais, problemas na família e na escola, que roubam um carro para cruzar a Alemanha em direção à região da Valáquia na Romênia. Entretanto, essa ideia se transforma durante a leitura, principalmente devido à complexidade das personagens, que ao mesmo tempo em que permitem uma identificação do leitor pelo clichê de uma cultura jovem globalizada em que se ouve Beyoncé, se fala de futebol, há frustrações amorosas, pressão social e tantos outros desafios próprios dessa faixa etária, também são marcadas por uma densidade psicológica que redefine o percurso da trama fictícia por diversas vezes, se aproximando da concepção de homem pós-moderno e dos dilemas enfrentados na contemporaneidade.
Os dois personagens principais, Maik Klingenberg e Andrei Tschichatschow, mais conhecido por Tchick, estudam na mesma turma do 8º ano de uma escola em Berlim. Ambos são outsiders, sem amizades ou sentimento de pertencimento a um grupo social ou a um local. Enquanto Tchick, que vive na Alemanha há quatro anos, convive com os estereótipos atribuídos aos habitantes do leste europeu, Maik vive em um mundo familiar em colapso, fazendo com que ele use a apatia como uma válvula de escape para seus conflitos.
A trama tem Maik como narrador-personagem, o que faz com que uma subjetividade emerja durante as narrações, sendo impossível saber o que de sua fala realmente aconteceu e o que é produto da emoção. Esse foco autodiegético do texto expresso pela voz do protagonista de 14 anos gera também certa empatia dos leitores pela personagem, o que contribui para que se estabeleça uma relação dialógica com o texto. Além do mais, o fato do narrador participar dos acontecimentos traz um tom de autenticidade aos acontecimentos do desenrolar do enredo por mais absurdos que estes sejam. Por exemplo, logo no início das primeiras páginas, já se sabe que a aventura de Maik e Tchick terminou na delegacia de polícia com feridos, mas o leitor só começa a entender os motivos e os porquês desse desfecho a partir do capítulo 5, quando a narrativa passa a seguir o tempo cronológico dos eventos vividos pelos adolescentes.
Apesar do protagonismo de Maik, o livro de intitula Tchick, justamente porque amizade entre os dois foi o elemento transformador que possibilitou que Maik olhasse para si mesmo e refletisse sobre seus dilemas. A viagem até a Valáquia converte-se a um processo cíclico de autoconhecimento no decorrer dos 49 capítulos da obra, que não deixa de ser intrigante e sedutor ao ler, por mais que o destino das personagens seja conhecido.
Tchick não representa uma luta entre as forças do bem e as forças do mal ou entre a vida e a morte, mas uma busca pelo autoconhecimento. É sobre dois estranhos que construíram um relacionamento. Dois garotos que se complementam quase perfeitamente e reforçam as qualidades um do outro. Por causa disso, o leitor é trazido para dentro da história independentemente de sua idade, quer quando os personagens participam de uma discussão filosófica sob o céu estrelado, quer fiquem sem gasolina no meio da estrada, o leitor se identifica com Maik e Tchick ao longo do livro. Dessa forma, a autenticidade do enredo, a construção das personagens e a presença da cultura pop, tornam Tchick uma leitura emocionante e despreocupada, que pode ser considera uma síntese do que é ser jovem no mundo contemporâneo.
Referência:
HERRNDORF, Wolfgang. Tchick. Tradução de Claudia Abeling. 1. ed. São Paulo: Tordesilhas, 2011.

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